Como a abordagem equivocada na formação de instrutores pode limitar a evolução da segurança pública?

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Ernesto Kenji Igarashi

Ernesto Kenji Igarashi, como especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, esclarece que multiplicar conhecimento sem método é multiplicar também os vícios, e poucas áreas pagam tão caro por esse descuido quanto a segurança pública. A formação de multiplicadores virou palavra de ordem nos planos institucionais, mas a forma como ela é conduzida frequentemente reproduz, em escala, os mesmos erros que se pretendia corrigir.

A lógica do multiplicador é sedutora e, em tese, irrefutável. Diante de orçamentos limitados e efetivos numerosos, formar instrutores internos capazes de replicar o conhecimento parece a solução óbvia para escalar a capacitação sem depender eternamente de consultores externos. O problema raramente está na intenção, e sim na execução, porque transformar um bom operador em um bom formador exige competências que não se transferem automaticamente com a experiência de campo.

Vamos entender por que o melhor agente nem sempre é o melhor instrutor, como a ausência de andragogia compromete a qualidade da replicação e quais boas práticas separam um programa de multiplicadores que eleva a corporação de outro que apenas perpetua suas limitações.

O equívoco de confundir competência técnica com capacidade de ensinar

A primeira armadilha da formação de multiplicadores nasce de uma premissa falsa, a de que quem domina uma técnica está automaticamente apto a ensiná-la. Saber executar e saber transmitir são habilidades distintas, e a segunda exige clareza didática, paciência, capacidade de diagnóstico individual e domínio sobre como adultos efetivamente aprendem. Um operador brilhante que não consegue decompor seu próprio conhecimento em etapas assimiláveis tende a formar profissionais que apenas imitam gestos sem compreender a lógica por trás deles.

Ernesto Kenji Igarashi considera que essa imitação superficial é especialmente perigosa na segurança pública, em que o contexto muda a cada ocorrência e a aplicação mecânica de um procedimento pode ser desastrosa. Quando o multiplicador ensina o que fazer sem ensinar por que fazer, ele produz agentes incapazes de adaptar a resposta a situações imprevistas.

A padronização que liberta e a que aprisiona

Programas de multiplicadores enfrentam uma tensão constante entre padronizar e adaptar. A padronização é necessária, já que ela garante que todos os agentes compartilhem uma base comum, falem a mesma linguagem operacional e sigam protocolos coerentes em situações críticas. Sem ela, cada unidade desenvolveria suas próprias práticas, comprometendo a coordenação em operações conjuntas. Sendo especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, Ernesto Kenji Igarashi elucida que a padronização, contudo, precisa ser de princípios, não de roteiros engessados que ignoram a realidade local de cada território.

Ernesto Kenji Igarashi
Ernesto Kenji Igarashi

O equilíbrio está em padronizar fundamentos e flexibilizar aplicações. Um protocolo de abordagem deve ter princípios inegociáveis de segurança, mas precisa permitir que o agente ajuste a execução ao contexto que encontra. Levando isso em conta, o multiplicador competente ensina o porquê de cada procedimento, capacitando o agente a tomar decisões coerentes mesmo diante de cenários não previstos no manual. Com efeito, a melhor formação não produz executores idênticos, e sim profissionais alinhados em princípios e autônomos em julgamento.

O ciclo que não pode terminar no certificado

Ernesto Kenji Igarashi ressalta que um dos erros mais comuns nos programas de formação de multiplicadores em segurança pública é tratar a capacitação como evento, e não como processo. O instrutor é formado, replica o conteúdo, emite certificados e o ciclo se encerra, sem qualquer mecanismo de atualização, supervisão ou avaliação de impacto. Sem retroalimentação, o conhecimento transmitido envelhece, os vícios se acumulam e a corporação perde a capacidade de saber se o investimento gerou resultado real no terreno.

A formação de multiplicadores só cumpre seu propósito quando inclui supervisão continuada, reciclagem periódica e mensuração de desempenho operacional. O multiplicador precisa ser ele próprio acompanhado, atualizado e avaliado, sob pena de se tornar um vetor de defasagem em vez de um agente de evolução. Por consequência, instituições maduras tratam o programa como uma engrenagem viva, que se ajusta continuamente às transformações do ambiente de segurança.

Formar quem forma é o investimento que define o futuro da segurança pública

O verdadeiro salto de qualidade da segurança pública brasileira não virá apenas de novos equipamentos ou de aumento de efetivo, e sim da capacidade de formar multiplicadores que pensem, adaptem e elevem quem está ao seu redor. Ernesto Kenji Igarashi pontua que cada instrutor bem preparado multiplica seu impacto por dezenas de agentes ao longo dos anos, e cada instrutor mal preparado propaga limitações na mesma proporção. 

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